Willyams
deseja mais que apenas a representação da cidade,
quer possuir seus pedaços, seus depoimentos, fragmentos de
cada história do dia-a-dia que se registram nos muros desgastados
pelo tempo, reafirmando que ali, tem histórias a contar.
Como fazer para capturar, tomar posse desses fragmentos de cidade?
Quais técnicas seriam ideais para alcançar este objetivo?
Quais fragmentos seriam mais significativos à sua poesia
pessoal? O que é importante falar ao fruidor diante da obra?
De que maneira sensibilizar acima de tudo?
Começou suas investigações com algumas perguntas
ainda sem respostas, com a determinação de que sabia
que estava procurando alguma coisa que se faria visível,
se revelaria somente a partir da sua imersão, sua perdição
no fluxo das vias públicas, transformando-se em testemunha
e agente da vida nas grandes cidades, sua existência no prazer
e na dor, na fartura e na precariedade, contradições
de todo organismo que nasce e morre para se renovar a cada instante.
A identificação com as pichações e os
grafites foi o ponto de partida. O mundo noturno dos pichadores,
a transgressão, suas reivindicações sociais,
as desigualdades dentro do espaço da cidade, fazem parte
do imaginário de Willyams no seu percurso artístico,
nesta pesquisa e antes dela, nas artes visuais ou na música,
duas artes que cruzam-se em suas esquinas pessoais. É um
entrechoque de forças que se movimentam em direções
variadas e que somente estando perdido foi possível se encontrar.
Willyams atirou-se nas ruas e deixou-se perder misturando-se às
informações que vinham de todos os lados.
Percebeu a grandiosidade e complexidade dos sítios urbanos
e sentiu as histórias que ali ficavam marcadas nas paredes,
nos postes, nas placas, no asfalto. Desta sensibilidade começavam
a surgir os primeiros passos rumo ao que ele viria a chamar de "peles
grafitadas".
Deslocar vestígios, depoimentos, signos colocados no espaço
público por anônimos, trazer para outro contexto foi
seu objetivo principal. Recontar outras histórias, juntando
fragmentos e fazendo de sua coleção de peles, um livro
que documenta uma época em suas expressões parietais.
Como arrancar estas imagens? A solução técnica
foi encontrada após sucessivas tentativas e envolvia ações
que fugiam ao controle do atelier, expondo-se nas noites, nos cantos,
colando tecidos e arrancando peles, num risco que envolve adrenalina
e torna cada trabalho mais especial pelas histórias que iam
se sobrepondo entre ações e registros. O resultado,
com possibilidade de desdobramento, é uma obra singular,
descoberta na simplicidade e complexa em sua potencialidade discursiva
no contexto contemporâneo.
Roaleno Costa |